Um dos meus maiores prazeres é poder passar a madruga lendo e devorar um livro até o final. Ler uma obra ininterruptamente sempre me deixa com a sensação de entender melhor o texto, de conseguir entrar em outro mundo por algumas horas e sair desse mundo com uma compreensão mais profundo daquele universo.
Como amanhã (hoje) é feriado, foi esse o meu programa da madrugada. E como a estória está fresca na memória, já resolvi escrever a resenha aqui no blog, pra poder passar com mais fidelidade o sentimento com que esse livro me deixou.
Todo ano no aniversário de uma das minhas melhores amigas, eu dou pra ela de presente um livro e compro o mesmo livro pra mim, é como uma tradição. O escolhido da vez foi As Vantagens de Ser Invisível, de Stephen Chbosky (editora Rocco, 2007, 223 página, título original "The Perks of Being a Wallflower" de 1999).
Todo ano no aniversário de uma das minhas melhores amigas, eu dou pra ela de presente um livro e compro o mesmo livro pra mim, é como uma tradição. O escolhido da vez foi As Vantagens de Ser Invisível, de Stephen Chbosky (editora Rocco, 2007, 223 página, título original "The Perks of Being a Wallflower" de 1999).
Eu tinha ouvido falar muito bem desse livro, mas confesso que não é o tipo de livro que chamaria a minha atenção normalmente. E isso não é por causa da estória em si, mas por causa do estilo da narrativa. A estória é contada em primeira pessoa pelo protagonista Charlie, através de cartas a uma pessoa que ele nem mesmo conhece. O estilo e ritmo da narrativa são bem condizentes com a personalidade e idade do personagem e ajuda na construção do mesmo em nossa imaginação. É fácil imaginar Charlie, pois o que ele conta e como ele conta casam perfeitamente.
Através dessas cartas vamos conhecendo o protagonista / narrador, um garoto de 15 anos que, como a maioria dos garotos de 15 anos que conhecemos, está num processo de descobrimento de si mesmo e de sua personalidade. Charlie começa a escrever as cartas após o suicídio de um de seus melhores amigos (um de seus únicos amigos), quando ele se vê perdido e assustado com todas as mudanças que estão ocorrendo em sua vida. Ele mora com os pais e é o caçula da família, com seu irmão mais velho que joga futebol na faculdade e a irmã do meio que está pra se formar no ensino médio e tem um namorado problemático.
E ele também não quer ser reconhecido. Ele conta seus segredos e pensamentos mais íntimos a um total estranho, apenas por julgar esse interlocutor um bom ouvinte por causa de uma estória que ele ouviu na escola sobre essa pessoa. E ele tem o cuidado de não revelar nenhuma tipo de detalhe que comprometa a sua anonimidade e troca o nome dos personagens para que não haja chance da pessoa reconhecê-lo. Até mesmo a estrutura familiar é difícil de reconhecer, uma típica família americana. Acho que esse artifício utilizado pelo autor faz com que possamos pensar em Charlie como qualquer adolescente que conhecemos, como se a sua estória pudesse ser a de qualquer um. O que importa é a estória , mas a quem ela de fato pertence não modifica o significado do que é contado.
Mas ao mesmo tempo em que Charlie poderia ser qualquer adolescente, ele não é. Alguns de seus dramas são comuns a muitos adolescentes, mas a sua personalidade é única. Há uma espécia de inocência em relação a sua visão de si mesmo e da vida que faz com que cada descoberta a respeito do universo ao seu redor seja ainda mais surpreendente e mágicas para ele. E não é uma inocência no sentido comum em que usamos a palavra, mas no sentido em que ele realmente não sabe o que esperar das situação e nem o que é esperado dele. Ele é quase infantil, como se o seus comportamento e atitudes fossem imaturos pra sua idade, mas ao mesmo tempo essa parece ser uma característica intrínseca a sua personalidade.
Sua vida muda quando ele conhece Sam e Patrick, irmãos que se tornam seus amigos e o aceitam com todas as suas excentricidades, e que expandem o seu círculo social. Charlie a princípio é uma pessoa muito observadora, mas como ele mesmo coloca, ele decide participar mais da sua realidade em vez de apenas observá-la, e é aí que vemos esse garoto começar a entrar em contato com a vida que habita, com sua sexualidades, com bebidas e drogas, com as pessoas ao seu redor, com a amizade e com o amor.
Ah, sobre o título! Quando eu li o nome do livro pela primeira vez, imaginei um garoto invisível no sentido em que ninguém notava a sua presença ou prestava atenção a ele. Mas não é esse tipo de invisibilidade. O que acontece é que Charlie acaba sendo o espectador de momentos íntimos e pessoais de alguns de seus amigos e familiares, e ele é o tipo de cara que guarda os segredos alheiros pra si (na maioria das vezes). É como quando você paga um mico e acha que ninguém viu, mas depois percebe que teve aquela uma pessoa que presenciou a cena e não fez nenhum comentário, mas te dá aquele olhar de cumplicidade? Esse é Charlie. No título original o termo utilizado é "wallflower", que denomina uma pessoa solitária ou tímida, que poucos conhecem, ou que pouco participa do convívio social. "Wallflower" não é exatamente invisível, acho que o título original é mais fiel ao personagem. E o interessante é que é essa invisibilidade que permite essa cumplicidade entre Charlie e as outras pessoas, e essa cumplicidade acaba por alimentar o seu repertório social e o expor a novas experiências.
Charlie tem seus problemas, ele não é um garoto comum. Mas isso também faz dele um menino brilhante em muitos sentidos. Ah, eu já disse que ele também devora livros? Com a ajuda de um de seus professores, Charlie lê avidamente, e tem uma sensibilidade incomum pelas obras. Charlie é um menino bem sensível, ele não engole as emoções goela a baixo, ele transborda tudo aquilo que sente.
"Sam batucava com as mãos no volante. Patrick colocou os braço para fora do carro e fazia ondas no ar. E eu fiquei sentado entre os dois. Depois que a música terminou, eu disse uma coisa:
"Eu me sinto infinito."
E Sam e Patrick olharam pra mim e disseram que foi a melhor coisa que já tinha ouvido (...)"
Bom, ainda preciso falar se gostei ou não do livro? Acho que ficou claro. Como eu disse, eu normalmente tenho dificuldade com narrativas em primeira pessoa de personagens adolescentes, mas nesse caso não me incomodou. Acho que foi devido a coesão entre personagem e linguagem mesmo. Eu não fiquei com a sensação de que o autor teve que se esforçar pra escrever como uma garoto de 15 anos, me pareceu legitimamente que aquele garoto escreveu a estória.

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